Tempo, volta para trás


#Pretty

Não raras vezes usamos a expressão “o tempo passou e nem dei por ele”. 

Não se trata apenas de uma frase já feita que usamos quando não temos mais nada a acrescentar. Trata-se de um facto.

Os nossos dias são passados entre trabalho e casa. Em cinco dias seguidos raramente conseguimos reservar algum tempo para ligar aquele amigo ou amiga; ligar os pais ou aos avós. Passamos os dias a adiar certos contactos porque não temos tempo. Trabalhamos muitas horas, perdemos tempo no trânsito ou nos transportes, temos que ir às compras, temos que ir ao ginásio… 

E nisto se passa uma semana!

Chegado o fim de semana queremos parar em casa para descansar. Por vezes desmarcamos compromissos porque estamos cansados e remarcamo-los para o próximo fim de semana. Mas no próximo a outra pessoa não pode e então fica para dali a três semanas ou um mês.

O nosso dia-a-dia é uma correria. Queremos estar em todo o lado sem estar em lado nenhum. Falar com todas as pessoas sem ter que abrir a boca. Não é cansativo? Claro que é. Mas é assim que funciona a sociedade do século XXI.

A internet é uma benção, mas é também um pesadelo, pois permite-nos estar sempre contactáveis.

Agora que o país está em estado de emergência somos forçados a ficar em casa – alguns de nós – e isso obriga-nos a desmarcar todos os compromissos. 

Porém, neste momento não sabemos durante quanto tempo vamos estar proibidos de sair para jantar, de ir ao cinema, de ir a um centro comercial, de ir visitar os pais. Neste momento, o que sabemos é que há milhares de pessoas infetadas pelo COVID-19 e vários mortos. 

São números que assustam, são números que colocam em causa a nossa sociedade, a nossa forma de estar e de viver.

No fundo, são números que agora nos obrigam a repensar a vida tal e qual como a temos vivido.

Valerá a pena andarmos tão ocupados sem prestar atenção ao próximo? Valerá a pena focarmo-nos apenas no trabalho e colocar a convivência em espera?

Olhando para as últimas semanas consigo identificar situações em que podia ter saído mais cedo do trabalho para ir ao sushi com a Susana; podia ter saído a um sábado para ir visitar a Guida que mora a uns quantos quilómetros de mim; podia ter ido mais vezes ao cinema com o João…

Não se trata de chorar sobre o leite derramado, trata-se de encarar a situação tal como ela é: a sociedade tal como a conhecíamos até este momento não deixa espaço aos valores de amizade e família, pois suga-nos o tempo e a energia em questões laborais e fúteis.

Valerá a pena?



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