Cartas de amor, quem as não tem?
#Pretty
Eu ainda sou da geração em que não havia SMS grátis, nem chamadas de graça e a internet era contada ao minuto. Ou seja, eu ainda sou do tempo em que se trocavam cartas de amor, pois de outra forma não dava para exprimir os sentimentos que absorvem um jovem adolescente a descobrir o amor pela primeira vez.
Há muito tempo que não pensava em cartas de amor, mas li recentemente um livro que me fez reavivar estas memórias. ‘Já não se escrevem cartas de amor’, de Mário Zambujal, é uma narrativa muito interessante.
Digo interessante, não porque se resume a falar de cartas de amor, mas porque nos transporta para uma época já longínqua que eu, e muitas pessoas, não vivemos e, por isso, não recordamos.
O livro faz-nos viajar até à Lisboa dos anos 50. Um grupo de amigos, jovens, correm a noite lisboeta, quais playboys! No fundo é o que acontece no século XXI nos bares do Bairro Alto e do Cais do Sodré. Mas naquela época era diferente: havia glamour na conquista, havia sedução na tentativa e havia cautela no respeito.
A personagem principal acaba por conhecer uma mulher austríaca por quem se apaixona e com quem namora. Mas ela regressa ao seu país natal e começa então a troca de cartas de amor – e naquele tempo não havia correio azul! Era preciso esperar e esperar e esperar.
O livro também nos fala do tempo. Da forma como a noção de tempo mudou. A história dos anos 50 é-nos contada pelo narrador num tempo já atual, porém, indeterminado. Sabemos apenas que já existem telemóveis.
Ao longo do livro, Duarte recorda a sua juventude. Os seus amores e desamores, as suas aventuras e desventuras e a forma como conheceu a mulher. Um pormenor saboroso é que só na penúltima frase do livro é que ficamos a saber com qual das senhoras ele, afinal, casou!
São 191 páginas de nostalgia do narrador que tem a capacidade nos transmitir esse sentimento como se o leitor, nascido nos idos dos anos 80 (como é o meu caso), pudesse efetivamente sentir saudade da época dos anos 50.
O que eu senti não foi saudades dos anos 50, mas saudades da minha pré-adolescência, de quando o tempo tinha outro sentido, de quando se viviam os amores e desamores com intensidade não publicada nas redes sociais, de quando se escreviam cartas de amor!
Comentários
Enviar um comentário