A Bela e a Fera

#Sunshine


*spoiler alert*


Desde sempre que adoro filmes da Disney. É a minha parte (mais outra) criança.

Nem é pelos romances, não é pelos finais felizes, não é pelo príncipe no cavalo branco que chega para acordar a princesa (esta é a história de Bela Adormecida que se chama Aurora).


É muito pela mensagem subliminar de todos os filmes ou das mensagens que eu escolho assumir ou retirar do mundo "imaginário" de Walt Disney.

Afinal, todos fazemos isto, interpretamos o mundo à nossa volta de acordo com os nossos valores, crenças, com o nosso contexto, com a nossa forma de ver a vida.

“It’s kind of fun to do the impossible”, é uma célebre frase de um homem que era visto pelos mais próximos como sendo “quase dolorosamente tímido, obstinado e auto-depreciativo”, e na sua biografia referem que foi uma criança que criou para si mesmo, no seu imaginário, um lugar onde se sentiria amado e seguro, escolhendo em adulto espalhar este imaginário pelo Mundo.

A Bela e o Monstro (Beauty and the Beast ou a Bela e a Fera) é um dos meus preferidos (bem... isto é muito relativo) e tenho uma forma bastante particular de interpretar a postura do Monstro.

No conto original, o Monstro procura ser bondoso para a maioria das pessoas, um cavalheiro, apenas sendo retratado com uma tendência ocasional para ser temperamental.

Contudo, na variante da Disney, o Monstro está constantemente irritado e deprimido, resultado de ser transformado em uma mistura de leão com um animal mítico, constituído por vários animais. Um príncipe vaidoso e egoísta, preso numa maldição lançada por uma feiticeira, disfarçada de mendiga que ele recusa acolher no seu castelo num dia de tempestade. Em conjunto com todo o staff do seu castelo, pessoas transformadas em objetos de acordo com as suas especificidades, ele fica preso a uma rosa que vai perdendo as pétalas por cada má ou temperamental ação e que serve como um timer para a duração da maldição… quando a última pétala cair, o Monstro e todos no castelo ficarão, para sempre, destinados à forma amaldiçoada. A única forma de contacto com o mundo exterior é um espelho, que ele nunca usa para se ver, tendo sempre horror ao seu reflexo e todos os outros espelhos da casa estarem escondidos.

Qual a salvação da Fera? Pois bem… o amor. Se a Fera aprender verdadeiramente a amar, se esse amor for correspondido, todo o feitiço se quebra. Tudo que antes era garantido da sua forma de viver, é transformado.

Em isolamento, sem contacto pessoal, com uma forma de ver o mundo apenas por um “espelho”, preso a uma maldição que só o amor pode salvar… Ring any Bell?! Parece o resultado de um tal vírus que nos “bateu” à porta e que como não “cuidámos” dele, virou-nos a vida do avesso.

Mas, tal como está a acontecer agora, estamos a ser mais cuidadosos. Não só por nós, mas também pelos que nos rodeiam. Temos uma forma diferente de ver o mundo, usamos "espelhos" para vermos os que amamos e para nos mantermos em contacto. Damos prioridade a ajudar, vamos ao exterior cheios de cuidados e precauções. Sabemos que o que dávamos como garantido, deixou de o ser.

Fera aprisiona Bela com o primeiro objetivo de fazer com que o feitiço se quebre para ter a sua vida de caprichos de volta. Como se o amor pudesse ser forçado e nos permitisse, de modo egoísta, sermos salvos e beneficiarmos apenas do benefício individual e prazer do nosso ego.

Com todo o evoluir do contacto, a Fera percebe que não controla o amor, que algo fora do seu controlo cresce e que o faz orientar-se para o bem-estar de alguém “fora de si próprio”.

Que o amor é, não o que beneficiamos, e sim muito mais o que nós damos.


Que quando passa a amar, a prioridade é o bem-estar que dá a Bela, a grande necessidade de a ver feliz.

É isso que o faz “libertar” Bela, para ela ajudar quem ama.

A Fera liberta Bela com o pedido de que leve o espelho, para ela continuar a vê-lo, pelo espelho, e poder lembrar-se dele. Reparem como não é ele a ficar com o espelho. O “Monstro” torna-se compreensivo, humano, altruísta, bondoso, deixou de precisar de ver o exterior por um "espelho".

“Eu deixei-a ir...” diz ele a um dos seus fiéis companheiros transformado em Relógio “porque eu a amo”.

A necessidade muda, a vontade muda, as prioridades mudam.

No fim, é o amor, dado e correspondido, que salva a vida.

#63 interrupted #41doúltimoabraço

#jánãoestamosemquarentena

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